Hoje eu ouvi uma música antiga.
Antiga no calendário. Atual na alma.
“Viagem ao Fundo do Ego” não é sobre vaidade.
É sobre confronto.
Há momentos na vida em que a gente precisa descer.
Não para o inferno dos outros.
Mas para o porão de si mesmo.
O ego constrói máscaras elegantes.
Profissões. Cargos. Convicções. Certezas morais.
Mas, quando o silêncio chega, sobra a pergunta incômoda:
Quem eu era antes de precisar provar alguma coisa?
Essa música me lembra que crescer não é acumular títulos —
é suportar olhar para o próprio passado sem distorcer a memória.
O “eu que eu era” não é um erro.
Também não é um herói.
É raiz.
E raiz não aparece.
Mas sustenta.
Talvez a verdadeira maturidade não esteja em vencer o mundo,
mas em integrar as versões que fomos.
Descer ao fundo do ego é perigoso.
Lá moram orgulho, medo, vergonha…
e também moram os sonhos mais puros que a vida quase nos fez esquecer.
Hoje, eu não quero apagar o eu que eu era.
Quero compreendê-lo.
Porque quem faz as pazes com o próprio passado
anda mais leve no presente.
Hoje eu ouvi Viagem ao Fundo do Ego, da banda Egotrip.
E não foi nostalgia. Foi confronto.
Essa música me levou direto ao menino que eu fui.
O garoto que acreditava que o mundo era simples, que a verdade era uma linha reta e que bastava esforço para tudo dar certo. O jovem que caminhava quilômetros porque não tinha dinheiro para o transporte, mas tinha convicção. O rapaz que defendia suas certezas com fervor quase sagrado.
Eu era intenso.
Eu era convicto.
Eu era, muitas vezes, ingênuo.
Descer ao fundo do ego é reconhecer isso sem ironia e sem vergonha.
Eu já fui o homem que precisava estar certo.
Já fui o que tinha respostas prontas.
Já fui o que confundia fé com controle, disciplina com dureza, silêncio com força.
Mas também fui o que sonhava alto quando não tinha nada.
O que estudava à noite depois de um dia exaustivo.
O que acreditava que a educação era uma ponte — e atravessou.
O “eu que eu era” não cabe numa caricatura.
Ele é feito de excessos e de coragem. De limitações e de bravura.
Hoje eu sei que amadurecer não é apagar o passado.
É integrá-lo.
A música fala de uma viagem interior.
E eu entendo isso na pele.
Porque, no fundo do meu ego, eu ainda encontro aquele menino —
não mais mandando, não mais gritando,
mas sustentando quem eu me tornei.
E talvez a maturidade seja isso:
não renegar quem fomos,
mas agradecer pela travessia.