Você passa anos tentando fazer a coisa certa, tentando ser o homem que esperam que você seja, até que um dia percebe que a sua própria vida passou e nenhum desses anos foi seu.
terça-feira, 26 de maio de 2026
domingo, 24 de maio de 2026
Enquanto houver coração
Há algo que duas pessoas poderiam ter, que não temos e gostaria que tivéssemos!
terça-feira, 5 de maio de 2026
Dizem que o tempo para quando o mundo encerra seu expediente para os fortes,
Mas em mim, o tempo é um mecanismo de pedra.
Não há dilúvio nos olhos, nem o sal no rosto,
Apenas o silêncio de um motor que parece em repouso.
Minha mente é um enxame que não sabe dormir,
Fervilha no escuro, com muitos espaços onde ir.
Por fora, o sossego de quem nada diz,
Por dentro, o ruído de uma raiz miserável , podre e infeliz.
O choro é raro, o rosto incerto, o sorriso teimoso é aberto
Mas o corpo resolve o que foi represado:
O sangue acelera, o visor marca o alto,
A pressão é o grito que sobra no alto.
Busco o lúpulo, o amargo, o ritual do malte artesanal,
No copo de vidro, que a mente se acalte.
Não é só bebida, é o peso do gole,
Tentando fazer com que o pensamento amole.
E quando a crise me exige o caminho,
Eu ganho a distância, o mundo e o sozinho.
Ando quilômetros, fujo do centro,
Gastando a sola do que queima por dentro.
Não é indiferença, nem peito deserto,
É um sistema complexo, de cálculo incerto.
O a tristeza, a ansiedade não sai pelo olho, em lamento,
Ele sai pelo passo, no cansaço e no vento.
terça-feira, 10 de março de 2026
A moça da novela
Há noites em que a memória
abre uma porta silenciosa
dentro de mim.
E você entra.
Cabelo curto entre meus dedos,
macio como sombra na água.
Eu o seguro devagar,
como quem segura um instante
que não deveria existir.
Você levanta o rosto.
Batom vermelho
como fruta madura
esperando um beijo que nunca aconteceu.
Seu sorriso vem pela metade,
boca fechada,
olhos profundos,
escuros e penetrantes
como quem conhece
o segredo que eu tento esconder.
Você chega perto.
Perto o bastante
para que o mundo perca o foco.
Sinto sua respiração
quente no meu ouvido,
e a sua voz grave
escorre lenta
como vinho derramado no silêncio.
Um som baixo,
quase um gemido,
quase um chamado.
E então seu perfume
sobe da pele quente —
Linda irresistível —
âmbar floral.
Doce, quente,
com algo de noite e de pele
misturados no mesmo ar.
Seu corpo se encosta no meu
como se sempre tivesse sido assim.
Minhas mãos aprendem
a geografia do seu corpo
no mapa secreto da imaginação.
Suas pernas longas,
o calor da sua pele,
a curva firme do seu corpo
que parece feita
para caber no abraço de um desejo.
E por um segundo
que dura uma eternidade
só existe você
seu perfume
sua boca vermelha
e o calor da sua presença
que incendia o silêncio.
Mas a noite sempre termina.
E quando o pensamento volta
à realidade calma do mundo
você já se foi.
Só fica no ar
um rastro imaginado de âmbar
e a lembrança impossível
do gosto do seu batom vermelho.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Viagem ao fundo do ego
Hoje eu ouvi uma música antiga.
Antiga no calendário. Atual na alma.
“Viagem ao Fundo do Ego” não é sobre vaidade.
É sobre confronto.
Há momentos na vida em que a gente precisa descer.
Não para o inferno dos outros.
Mas para o porão de si mesmo.
O ego constrói máscaras elegantes.
Profissões. Cargos. Convicções. Certezas morais.
Mas, quando o silêncio chega, sobra a pergunta incômoda:
Quem eu era antes de precisar provar alguma coisa?
Essa música me lembra que crescer não é acumular títulos —
é suportar olhar para o próprio passado sem distorcer a memória.
O “eu que eu era” não é um erro.
Também não é um herói.
É raiz.
E raiz não aparece.
Mas sustenta.
Talvez a verdadeira maturidade não esteja em vencer o mundo,
mas em integrar as versões que fomos.
Descer ao fundo do ego é perigoso.
Lá moram orgulho, medo, vergonha…
e também moram os sonhos mais puros que a vida quase nos fez esquecer.
Hoje, eu não quero apagar o eu que eu era.
Quero compreendê-lo.
Porque quem faz as pazes com o próprio passado
anda mais leve no presente.
Hoje eu ouvi Viagem ao Fundo do Ego, da banda Egotrip.
E não foi nostalgia. Foi confronto.
Essa música me levou direto ao menino que eu fui.
O garoto que acreditava que o mundo era simples, que a verdade era uma linha reta e que bastava esforço para tudo dar certo. O jovem que caminhava quilômetros porque não tinha dinheiro para o transporte, mas tinha convicção. O rapaz que defendia suas certezas com fervor quase sagrado.
Eu era intenso.
Eu era convicto.
Eu era, muitas vezes, ingênuo.
Descer ao fundo do ego é reconhecer isso sem ironia e sem vergonha.
Eu já fui o homem que precisava estar certo.
Já fui o que tinha respostas prontas.
Já fui o que confundia fé com controle, disciplina com dureza, silêncio com força.
Mas também fui o que sonhava alto quando não tinha nada.
O que estudava à noite depois de um dia exaustivo.
O que acreditava que a educação era uma ponte — e atravessou.
O “eu que eu era” não cabe numa caricatura.
Ele é feito de excessos e de coragem. De limitações e de bravura.
Hoje eu sei que amadurecer não é apagar o passado.
É integrá-lo.
A música fala de uma viagem interior.
E eu entendo isso na pele.
Porque, no fundo do meu ego, eu ainda encontro aquele menino —
não mais mandando, não mais gritando,
mas sustentando quem eu me tornei.
E talvez a maturidade seja isso:
não renegar quem fomos,
mas agradecer pela travessia.
domingo, 21 de setembro de 2025
Ainda estou aqui?!
Ainda estou aqui?!
BARROS, R. A.
Sobrevivi!
Ao meu não de ontem,
A sua ausência de hoje.
Mas ainda há o amanhã,
E meu pensamento
Jaz acelerado - busca, no punhado do futuro,
A ansiedade de hoje
Somada à tensão de ontem,
Sem contar
Que não sei qual demônio
Hoje far-se-a à tua retina
Sobrevivi?
domingo, 31 de agosto de 2025
“Cheguei, mas não cheguei”
“Cheguei, mas não cheguei”
Vinha apressado,
com o coração ansioso de quem corre
para o seu próprio porto.
Mas antes da chave girar,
antes do cheiro da tapioca quente se espalhar,
já estava condenado:
mentiroso, suspeito,
mais um na estatística dos que dizem
e não cumprem.
Olha que ironia:
enquanto eu comprava teu gosto favorito,
na tua cabeça eu já como os outros.
Enquanto eu pensava no brilho nos olhos do nosso filho,
tu me pintavas com as cores da mentira.
Trouxe mimo,
trouxe cuidado,
trouxe pedaços de amor embrulhados em sacola de feira.
Mas de que serve um presente
quando quem recebe já decidiu
que veio com engano?
É curioso:
desconfiança pesa tanto ou mais do que uma traição real.
Corrói devagar e rápido,
com ares de justiça,
como se fosse natural punir
quem na mente apenas voltou pra casa.
E então fico pensando:
será que o erro foi meu caminho,
ou teus olhos que preferiram enxergar mentiras
onde só havia retorno?
Eu vim pra casa, sim.
Só não sabia
que o lar podia me receber
com as portas fechadas por dentro.
quarta-feira, 16 de julho de 2025
Sob quais escolhas me escondo?
"Sob quais escolhas me escondo?"
(Rafael André)
Quem sou?
Sob quem me escondo?
Sou casca de um garoto,
que sonhava em voz alta
e hoje sussurra desculpas pra si mesmo.
Escombros.
Sou escombros.
De outrora um menino —
passos curtos,
olhos largos,
esperança sem prazo de validade.
O caminho era longo.
E eu achava bonito ser infinito.
Mas tropecei nas pressas,
nas escolhas feitas com pressa,
nos amanhãs que nunca vieram.
O que fiz?
Onde cheguei?
Por quê?
Há, se soubesse…
Mas a vida não oferece recibo,
nem nota fiscal com garantia.
Então, sempre sobra a maldita pergunta:
E se…?
E se eu tivesse entrado à esquerda,
em vez da direita?
Se tivesse dito sim —
ou não?
Se tivesse ficado?
Se tivesse ido?
Seria menos ou mais feliz?
Ou só teria um outro tipo de saudade?
Outra cicatriz mais bem escondida?
Outro Silêncio e outra garrafa pra me embriagar?
Não sei.
Talvez a felicidade more mesmo ali
na dúvida etílica etérea.
Talvez, no fundo,
o que eu busco
é só a permissão pra me conformar ao Édipo.
domingo, 29 de junho de 2025
28 de junho de 2025
Ergui o copo,
como quem pede perdão sem palavras.
Brindei ao gesto que não fiz,
à conversa que engoli a seco,
e ao abraço que deixei para depois —
com medo de sufocar.
No reflexo de uma garrafa verde,
vi um homem em silêncio.
Não por desamor.
Mas por cansaço.
Por medo de mais uma frase errada,
de mais um olhar decepcionado,
de mais um grito de cortar a alma.
Eu já tentei ser ponte,
mas virei abismo.
Já falei com alma inteira,
e recebi o urro dos desesperados.
Então, agora me escondo no não-dito,
pra não magoar.
Ela diz que
pareço distante.
Mas estou aqui.
Preso dentro de mim.
Medindo palavras antes de soltá-las,
pesando gestos antes de dá-los —
como quem segura cristais rachados,
mas, uma hora
deixa-os cair
Fumo o resto do orgulho.
A mão que afaga,
às vezes fere pensando proteger.
A palavra que conforta,
às vezes vira punhal de dois gumes.
Se ainda sonho,
me calo.
Se ainda amo,
não exalo,
quieto, contido, calado.
Mas se ainda tenho este gole,
este instante,
esta lembrança de quando as palavras fluíam — bebo.
Porque o último copo
do que se cala
é sempre o primeiro grito
que ele não teve coragem de soltar.
E o meu idílio?
Às vezes morre de sede,
dentro de uma mente cheia e inquieta.
Ergui o copo,
como quem ergue desculpas.
Brindei às flores que esqueci de comprar,
aos aniversários que passaram como ventos,
e a roupa de ontem —
que ela vestiu,
e eu… esqueci de elogiar.
No reflexo de uma garrafa verde,
vi meu rosto partido:
um homem que tenta,
que erra,
que vive em labirintos,
e tropeça na pressa da própria mente.
Eu quis ser o marido dos filmes:
pontual, seguro, previsível.
Mas sou o cara das cenas cortadas —
aquele que se perde no meio do caminho,
entre a intenção e o gesto.
Enquanto isso,
esqueço de pôr lembretes no celular
pra lembrar da hora que ela larga do trabalho,
que gosta do banheiro limpo,
que gosta de ser ouvida até o fim da frase.
Mas eu ouço o começo…
e já me perco no fim, antes do lembrete existir.
Bebo a ideia de que só o esforço me basta.
O gesto que dou, quase sempre, vem depois do momento certo.
O elogio, atrasado,
soa como desculpa.
Minha presença… quase sempre desfocada.
Se ainda sorri, é por meu Eu.
Se ainda sonha, é por meu outro eu.
E eu?
Eu ainda desatento, tento.
Intimamente sei que me iludo.
Mas se ainda tenho esse gole poético,
esse instante em que a chuva cai lá fora,
essa memória de quando ela dizia “você me completa” — bebo com gosto.
Porque meu último copo
sempre será uma lembrança não lembrada.
E, meus gestos, notificações silenciadas.
Poema Etílico-Existencial: Garrafa verde, Silêncio no fone e brindes com meus Eus (hadt)
No vidro verde,
me espelho.
Tantos me vejo.
Jaz em todos
um homem que já cansou —
das promessas,
dos insucessos
na vida desta semana.
A espuma que resta no fundo da garrafa
é a mesma que sobe,
lenta,
pelas perguntas
que ninguém mais ouve.
De fone no ouvido,
ouço os ruídos da alma.
E no silêncio da mesa,
sou só eu,
essa cerveja,
o copo – seu amante sincero,
um caldinho indiscreto,
e meus pensamentos,
tão inquietos.
Embora cravado nos 90 bpm,
o coração inda bate
no ritmo correto —
vez em quando,
descompassado.
Já não espero respostas,
atitudes corretas,
nem brindes exagerados
dos meus Eus.
Basta o gole certo,
no tempo certo,
no solo certo,
na vista incerta,
para estancar a agonia
e lembrar:
ainda tô aqui.
E por hoje,
isso me basta.
