Perido, confuso, com medo, ansioso... com consciência que preciso abrir passagem numa estrada que não é minha!
domingo, 30 de agosto de 2026
quarta-feira, 29 de julho de 2026
Pássaro branco
O abismo não se apaga com mais abismo.
A noite não clareia a noite que no peito jaz.
Tentar curar a dor com a própria dor,
É como querer apagar o fogo com chamas,
Ou o frio com gelo, ou o sal com lágrimas.
O ultrarromântico se delicia em seu sofrimento,
Cria musas de mármore e lamentos de cetim.
Mas a escuridão não cura a escuridão,
Apenas a torna mais profunda e sem fim.
O cínico, em sua torre de lucidez fria,
Ri da comédia humana e de sua vã esperança.
Ele sabe que a escuridão, naquele instante, é a sua única verdade,
E que o sol, quando nasce, é apenas uma trapaça.
O existencialista, com seu peso de responsabilidade,
Busca um sentido no vácuo, uma razão para agir.
Mas a escuridão não cura a escuridão,
E ele se vê, solitário, no palco do absurdo, a sorrir.
E a mente neurodivergente, no meio de tanta dor,
Analisa, hiperfocada, o padrão do sofrimento.
Procura a lógica no caos, o algoritmo do amor,
E encontra, no final, apenas o silêncio do momento.
Sim, a escuridão não cura a escuridão,
Isso eu sei com a clareza de um copo de vidro.
Mas é nela que eu encontro a minha própria razão,
E é nela que eu me perco, em meu próprio delírio.
Enquanto o mundo corre, em sua pressa de viver,
Eu me fecho em minha bolha, em meu refúgio secreto.
Bebo a minha cerveja, sem glúten e sem culpa,
E aceito a escuridão, c
omo o meu destino predileto.
segunda-feira, 6 de julho de 2026
Reflections of my life: da luz do sol para a luz da lua
Chegar aos 43 anos e se perceber trancado em um loop negativo é uma das sensações mais sufocantes que existem. Não se trata de uma busca egoísta por liberdade, mas do desejo simples de respirar, de ser espontâneo e de não viver sob a vigilância constante de um tribunal invisível, onde cada silêncio ou gesto é lido como uma falha. Quando o estoque emocional zera, ser cobrado por algo que você simplesmente não tem para oferecer faz a mente entrar em curto-circuito.
O corpo sente o impacto desse esgotamento crônico. A enxaqueca frontal lateral que vai e volta, os calafrios, a instabilidade intestinal súbita e o sono fragmentado na madrugada são os disjuntores biológicos desarmando. Diante da exaustão de passar anos se reprimindo e abrindo mão de si mesmo para evitar conflitos, o cérebro ativa mecanismos de defesa: o choro espontâneo a sós e a alienação mental — aquele estado aéreo onde você está fisicamente presente, mas psicologicamente protegido atrás de uma parede invisível de distanciamento.
Essa dinâmica gera uma sensação dolorosa de isolamento territorial, transformando quem você achava que era o seu porto seguro em um espaço onde você se sente um estrangeiro, rotulado e silenciado. Surge daí a urgência de ter um refúgio próprio, um território onde seja possível ditar as próprias regras e resgatar a autonomia. Mas mesmo a alternativa de recuar para caminhos antigos traz o medo legítimo de trocar uma gaiola por outra.
Como nos versos de “Reflections Of My Life” da banda Marmalade, o clamor “Take me back to my own home” é a busca desesperada por um lugar de segurança. E no trecho “The world is a bad place... Oh, but I don't wanna die”, revela-se a verdadeira essência desse cansaço: não há o desejo de desistir, mas sim um manifesto de resistência. É o desalento de um provedor exausto que se doou ao limite, mas que ainda recusa o fim. O choro e o recolhimento atuais não são sinais de fraqueza, são os reflexos de uma vida em transição, tentando reencontrar o próprio chão em meio à mudança.
quinta-feira, 2 de julho de 2026
Amo o desejo mais que o objetio desejado
O espelho não é vidro,
é fronteira.
Do lado de cá,
o universo se curva;
do lado de lá,
a luz se perde em poeira,
num vácuo onde a própria sombra se turva.
É um banquete de um homem só,
onde o prato principal é o desejo,
pois ama o querer mais que o objeto desejado,
e a fome do outro é apenas um nó que se desfaz no cinismo do espelho.
O "eu" é a bússola que sempre aponta para o próprio umbigo,
em giro constante,
incapaz de ler a soma que conta o que o outro sente,
em qualquer instante.
Quem se ama demais,
em excesso de peso,
caminha em círculos,
cego de si,
plantando o isolamento como um rezo de um deus que habita o vazio aqui.
O mundo,
então,
torna-se tela branca,
pintada apenas com o próprio tom;
e a vida,
que é troca,
se torna manca,
esquecendo o compasso do que é comum e bom.
No fim,
o egoísmo é uma ilha cercada por águas que ele mesmo represou:
quem só enxerga a própria estrada,
acaba sozinho,
onde a estrada parou.
domingo, 31 de maio de 2026
Viver não é apenas ver o tempo passar,
Não é calar o peito para o mundo aceitar.
É ter a coragem de mudar de rumo e de chão,
Mesmo carregando o peso de uma dolorosa partida na mão.
Deixar o que se ama dói, rasga e consome,
Mas insistir no que sufoca apaga o nosso próprio nome.
Aos quarenta e três, a vida exige o seu valor,
O direito de buscar a paz, muito além da dor.
Não é sobre o fim, é sobre o recomeço que se desenha no olhar,
É sobre o quarto novo, o trabalho e os filhos para cuidar.
Toda pessoa morre, o relógio não vai parar,
Mas viver de verdade é o que escolhemos resgatar.
terça-feira, 26 de maio de 2026
domingo, 24 de maio de 2026
Enquanto houver coração
Há algo que duas pessoas poderiam ter, que não temos e gostaria que tivéssemos!
terça-feira, 5 de maio de 2026
Dizem que o tempo para quando o mundo encerra seu expediente para os fortes,
Mas em mim, o tempo é um mecanismo de pedra.
Não há dilúvio nos olhos, nem o sal no rosto,
Apenas o silêncio de um motor que parece em repouso.
Minha mente é um enxame que não sabe dormir,
Fervilha no escuro, com muitos espaços onde ir.
Por fora, o sossego de quem nada diz,
Por dentro, o ruído de uma raiz miserável , podre e infeliz.
O choro é raro, o rosto incerto, o sorriso teimoso é aberto
Mas o corpo resolve o que foi represado:
O sangue acelera, o visor marca o alto,
A pressão é o grito que sobra no alto.
Busco o lúpulo, o amargo, o ritual do malte artesanal,
No copo de vidro, que a mente se acalte.
Não é só bebida, é o peso do gole,
Tentando fazer com que o pensamento amole.
E quando a crise me exige o caminho,
Eu ganho a distância, o mundo e o sozinho.
Ando quilômetros, fujo do centro,
Gastando a sola do que queima por dentro.
Não é indiferença, nem peito deserto,
É um sistema complexo, de cálculo incerto.
O a tristeza, a ansiedade não sai pelo olho, em lamento,
Ele sai pelo passo, no cansaço e no vento.
terça-feira, 10 de março de 2026
A moça da novela
Há noites em que a memória
abre uma porta silenciosa
dentro de mim.
E você entra.
Cabelo curto entre meus dedos,
macio como sombra na água.
Eu o seguro devagar,
como quem segura um instante
que não deveria existir.
Você levanta o rosto.
Batom vermelho
como fruta madura
esperando um beijo que nunca aconteceu.
Seu sorriso vem pela metade,
boca fechada,
olhos profundos,
escuros e penetrantes
como quem conhece
o segredo que eu tento esconder.
Você chega perto.
Perto o bastante
para que o mundo perca o foco.
Sinto sua respiração
quente no meu ouvido,
e a sua voz grave e suspiro leve
escorrem lentos
como vinho derramado no silêncio.
Um som baixo,
quase um gemido,
quase um chamado.
E então seu perfume
sobe da pele quente —
Linda irresistível —
âmbar floral.
Doce, quente,
com algo de noite e de pele
misturados no mesmo ar.
Seu corpo se encosta no meu
como se sempre tivesse sido assim.
Minhas mãos aprendem
a geografia do seu corpo
no mapa secreto da imaginação.
Suas pernas longas,
o calor da sua pele,
a curva firme do seu corpo
que parece feita
para caber no abraço de um desejo.
E por um segundo
que dura uma eternidade
só existe você
seu perfume
sua boca vermelha
e o calor da sua presença
que incendia o silêncio.
Mas a noite sempre termina.
E quando o pensamento volta
à realidade calma do mundo
você já se foi.
Só fica no ar
um rastro imaginado de âmbar
e a lembrança impossível
do gosto do seu batom vermelho.