É FODA PASSAR POR ESSA VIDA E NÃO TER UM PAI COM QUEM CONVERSAR, SE ABRIR... COMO HOMEM, TER QUE ENGOLIR SECO TUDO E TODOS E APRENDER NA FORÇA DA TRISTEZA E DO EMPÍRICO COMO LIDAR CM CADA SITUAÇÃO
quinta-feira, 2 de julho de 2026
Amo o desejo mais que o objetio desejado
O espelho não é vidro,
é fronteira.
Do lado de cá,
o universo se curva;
do lado de lá,
a luz se perde em poeira,
num vácuo onde a própria sombra se turva.
É um banquete de um homem só,
onde o prato principal é o desejo,
pois ama o querer mais que o objeto desejado,
e a fome do outro é apenas um nó que se desfaz no cinismo do espelho.
O "eu" é a bússola que sempre aponta para o próprio umbigo,
em giro constante,
incapaz de ler a soma que conta o que o outro sente,
em qualquer instante.
Quem se ama demais,
em excesso de peso,
caminha em círculos,
cego de si,
plantando o isolamento como um rezo de um deus que habita o vazio aqui.
O mundo,
então,
torna-se tela branca,
pintada apenas com o próprio tom;
e a vida,
que é troca,
se torna manca,
esquecendo o compasso do que é comum e bom.
No fim,
o egoísmo é uma ilha cercada por águas que ele mesmo represou:
quem só enxerga a própria estrada,
acaba sozinho,
onde a estrada parou.
domingo, 31 de maio de 2026
Viver não é apenas ver o tempo passar,
Não é calar o peito para o mundo aceitar.
É ter a coragem de mudar de rumo e de chão,
Mesmo carregando o peso de uma dolorosa partida na mão.
Deixar o que se ama dói, rasga e consome,
Mas insistir no que sufoca apaga o nosso próprio nome.
Aos quarenta e três, a vida exige o seu valor,
O direito de buscar a paz, muito além da dor.
Não é sobre o fim, é sobre o recomeço que se desenha no olhar,
É sobre o quarto novo, o trabalho e os filhos para cuidar.
Toda pessoa morre, o relógio não vai parar,
Mas viver de verdade é o que escolhemos resgatar.
terça-feira, 26 de maio de 2026
domingo, 24 de maio de 2026
Enquanto houver coração
Há algo que duas pessoas poderiam ter, que não temos e gostaria que tivéssemos!
terça-feira, 5 de maio de 2026
Dizem que o tempo para quando o mundo encerra seu expediente para os fortes,
Mas em mim, o tempo é um mecanismo de pedra.
Não há dilúvio nos olhos, nem o sal no rosto,
Apenas o silêncio de um motor que parece em repouso.
Minha mente é um enxame que não sabe dormir,
Fervilha no escuro, com muitos espaços onde ir.
Por fora, o sossego de quem nada diz,
Por dentro, o ruído de uma raiz miserável , podre e infeliz.
O choro é raro, o rosto incerto, o sorriso teimoso é aberto
Mas o corpo resolve o que foi represado:
O sangue acelera, o visor marca o alto,
A pressão é o grito que sobra no alto.
Busco o lúpulo, o amargo, o ritual do malte artesanal,
No copo de vidro, que a mente se acalte.
Não é só bebida, é o peso do gole,
Tentando fazer com que o pensamento amole.
E quando a crise me exige o caminho,
Eu ganho a distância, o mundo e o sozinho.
Ando quilômetros, fujo do centro,
Gastando a sola do que queima por dentro.
Não é indiferença, nem peito deserto,
É um sistema complexo, de cálculo incerto.
O a tristeza, a ansiedade não sai pelo olho, em lamento,
Ele sai pelo passo, no cansaço e no vento.
terça-feira, 10 de março de 2026
A moça da novela
Há noites em que a memória
abre uma porta silenciosa
dentro de mim.
E você entra.
Cabelo curto entre meus dedos,
macio como sombra na água.
Eu o seguro devagar,
como quem segura um instante
que não deveria existir.
Você levanta o rosto.
Batom vermelho
como fruta madura
esperando um beijo que nunca aconteceu.
Seu sorriso vem pela metade,
boca fechada,
olhos profundos,
escuros e penetrantes
como quem conhece
o segredo que eu tento esconder.
Você chega perto.
Perto o bastante
para que o mundo perca o foco.
Sinto sua respiração
quente no meu ouvido,
e a sua voz grave
escorre lenta
como vinho derramado no silêncio.
Um som baixo,
quase um gemido,
quase um chamado.
E então seu perfume
sobe da pele quente —
Linda irresistível —
âmbar floral.
Doce, quente,
com algo de noite e de pele
misturados no mesmo ar.
Seu corpo se encosta no meu
como se sempre tivesse sido assim.
Minhas mãos aprendem
a geografia do seu corpo
no mapa secreto da imaginação.
Suas pernas longas,
o calor da sua pele,
a curva firme do seu corpo
que parece feita
para caber no abraço de um desejo.
E por um segundo
que dura uma eternidade
só existe você
seu perfume
sua boca vermelha
e o calor da sua presença
que incendia o silêncio.
Mas a noite sempre termina.
E quando o pensamento volta
à realidade calma do mundo
você já se foi.
Só fica no ar
um rastro imaginado de âmbar
e a lembrança impossível
do gosto do seu batom vermelho.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Viagem ao fundo do ego
Hoje eu ouvi uma música antiga.
Antiga no calendário. Atual na alma.
“Viagem ao Fundo do Ego” não é sobre vaidade.
É sobre confronto.
Há momentos na vida em que a gente precisa descer.
Não para o inferno dos outros.
Mas para o porão de si mesmo.
O ego constrói máscaras elegantes.
Profissões. Cargos. Convicções. Certezas morais.
Mas, quando o silêncio chega, sobra a pergunta incômoda:
Quem eu era antes de precisar provar alguma coisa?
Essa música me lembra que crescer não é acumular títulos —
é suportar olhar para o próprio passado sem distorcer a memória.
O “eu que eu era” não é um erro.
Também não é um herói.
É raiz.
E raiz não aparece.
Mas sustenta.
Talvez a verdadeira maturidade não esteja em vencer o mundo,
mas em integrar as versões que fomos.
Descer ao fundo do ego é perigoso.
Lá moram orgulho, medo, vergonha…
e também moram os sonhos mais puros que a vida quase nos fez esquecer.
Hoje, eu não quero apagar o eu que eu era.
Quero compreendê-lo.
Porque quem faz as pazes com o próprio passado
anda mais leve no presente.
Hoje eu ouvi Viagem ao Fundo do Ego, da banda Egotrip.
E não foi nostalgia. Foi confronto.
Essa música me levou direto ao menino que eu fui.
O garoto que acreditava que o mundo era simples, que a verdade era uma linha reta e que bastava esforço para tudo dar certo. O jovem que caminhava quilômetros porque não tinha dinheiro para o transporte, mas tinha convicção. O rapaz que defendia suas certezas com fervor quase sagrado.
Eu era intenso.
Eu era convicto.
Eu era, muitas vezes, ingênuo.
Descer ao fundo do ego é reconhecer isso sem ironia e sem vergonha.
Eu já fui o homem que precisava estar certo.
Já fui o que tinha respostas prontas.
Já fui o que confundia fé com controle, disciplina com dureza, silêncio com força.
Mas também fui o que sonhava alto quando não tinha nada.
O que estudava à noite depois de um dia exaustivo.
O que acreditava que a educação era uma ponte — e atravessou.
O “eu que eu era” não cabe numa caricatura.
Ele é feito de excessos e de coragem. De limitações e de bravura.
Hoje eu sei que amadurecer não é apagar o passado.
É integrá-lo.
A música fala de uma viagem interior.
E eu entendo isso na pele.
Porque, no fundo do meu ego, eu ainda encontro aquele menino —
não mais mandando, não mais gritando,
mas sustentando quem eu me tornei.
E talvez a maturidade seja isso:
não renegar quem fomos,
mas agradecer pela travessia.