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terça-feira, 10 de março de 2026

A moça da novela


Há noites em que a memória

abre uma porta silenciosa

dentro de mim.


E você entra.


Cabelo curto entre meus dedos,

macio como sombra na água.

Eu o seguro devagar,

como quem segura um instante

que não deveria existir.


Você levanta o rosto.


Batom vermelho

como fruta madura

esperando um beijo que nunca aconteceu.


Seu sorriso vem pela metade,

boca fechada,

olhos profundos,

escuros e penetrantes

como quem conhece

o segredo que eu tento esconder.


Você chega perto.


Perto o bastante

para que o mundo perca o foco.


Sinto sua respiração

quente no meu ouvido,

e a sua voz grave

escorre lenta

como vinho derramado no silêncio.


Um som baixo,

quase um gemido,

quase um chamado.


E então seu perfume

sobe da pele quente —

Linda irresistível —

âmbar floral.


Doce, quente,

com algo de noite e de pele

misturados no mesmo ar.


Seu corpo se encosta no meu

como se sempre tivesse sido assim.


Minhas mãos aprendem

a geografia do seu corpo

no mapa secreto da imaginação.


Suas pernas longas,

o calor da sua pele,

a curva firme do seu corpo

que parece feita

para caber no abraço de um desejo.


E por um segundo

que dura uma eternidade

só existe você

seu perfume

sua boca vermelha

e o calor da sua presença

que incendia o silêncio.


Mas a noite sempre termina.


E quando o pensamento volta

à realidade calma do mundo

você já se foi.


Só fica no ar

um rastro imaginado de âmbar

e a lembrança impossível

do gosto do seu batom vermelho.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Viagem ao fundo do ego

Hoje eu ouvi uma música antiga.
Antiga no calendário. Atual na alma.

“Viagem ao Fundo do Ego” não é sobre vaidade.
É sobre confronto.

Há momentos na vida em que a gente precisa descer.
Não para o inferno dos outros.
Mas para o porão de si mesmo.

O ego constrói máscaras elegantes.
Profissões. Cargos. Convicções. Certezas morais.
Mas, quando o silêncio chega, sobra a pergunta incômoda:

Quem eu era antes de precisar provar alguma coisa?

Essa música me lembra que crescer não é acumular títulos —
é suportar olhar para o próprio passado sem distorcer a memória.

O “eu que eu era” não é um erro.
Também não é um herói.
É raiz.

E raiz não aparece.
Mas sustenta.

Talvez a verdadeira maturidade não esteja em vencer o mundo,
mas em integrar as versões que fomos.

Descer ao fundo do ego é perigoso.
Lá moram orgulho, medo, vergonha…
e também moram os sonhos mais puros que a vida quase nos fez esquecer.

Hoje, eu não quero apagar o eu que eu era.
Quero compreendê-lo.

Porque quem faz as pazes com o próprio passado
anda mais leve no presente.



Hoje eu ouvi Viagem ao Fundo do Ego, da banda Egotrip.
E não foi nostalgia. Foi confronto.

Essa música me levou direto ao menino que eu fui.

O garoto que acreditava que o mundo era simples, que a verdade era uma linha reta e que bastava esforço para tudo dar certo. O jovem que caminhava quilômetros porque não tinha dinheiro para o transporte, mas tinha convicção. O rapaz que defendia suas certezas com fervor quase sagrado.

Eu era intenso.
Eu era convicto.
Eu era, muitas vezes, ingênuo.

Descer ao fundo do ego é reconhecer isso sem ironia e sem vergonha.

Eu já fui o homem que precisava estar certo.
Já fui o que tinha respostas prontas.
Já fui o que confundia fé com controle, disciplina com dureza, silêncio com força.

Mas também fui o que sonhava alto quando não tinha nada.
O que estudava à noite depois de um dia exaustivo.
O que acreditava que a educação era uma ponte — e atravessou.

O “eu que eu era” não cabe numa caricatura.
Ele é feito de excessos e de coragem. De limitações e de bravura.

Hoje eu sei que amadurecer não é apagar o passado.
É integrá-lo.

A música fala de uma viagem interior.
E eu entendo isso na pele.

Porque, no fundo do meu ego, eu ainda encontro aquele menino —
não mais mandando, não mais gritando,
mas sustentando quem eu me tornei.

E talvez a maturidade seja isso:
não renegar quem fomos,
mas agradecer pela travessia.