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terça-feira, 10 de março de 2026

A moça da novela


Há noites em que a memória

abre uma porta silenciosa

dentro de mim.


E você entra.


Cabelo curto entre meus dedos,

macio como sombra na água.

Eu o seguro devagar,

como quem segura um instante

que não deveria existir.


Você levanta o rosto.


Batom vermelho

como fruta madura

esperando um beijo que nunca aconteceu.


Seu sorriso vem pela metade,

boca fechada,

olhos profundos,

escuros e penetrantes

como quem conhece

o segredo que eu tento esconder.


Você chega perto.


Perto o bastante

para que o mundo perca o foco.


Sinto sua respiração

quente no meu ouvido,

e a sua voz grave

escorre lenta

como vinho derramado no silêncio.


Um som baixo,

quase um gemido,

quase um chamado.


E então seu perfume

sobe da pele quente —

Linda irresistível —

âmbar floral.


Doce, quente,

com algo de noite e de pele

misturados no mesmo ar.


Seu corpo se encosta no meu

como se sempre tivesse sido assim.


Minhas mãos aprendem

a geografia do seu corpo

no mapa secreto da imaginação.


Suas pernas longas,

o calor da sua pele,

a curva firme do seu corpo

que parece feita

para caber no abraço de um desejo.


E por um segundo

que dura uma eternidade

só existe você

seu perfume

sua boca vermelha

e o calor da sua presença

que incendia o silêncio.


Mas a noite sempre termina.


E quando o pensamento volta

à realidade calma do mundo

você já se foi.


Só fica no ar

um rastro imaginado de âmbar

e a lembrança impossível

do gosto do seu batom vermelho.

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