Há noites em que a memória
abre uma porta silenciosa
dentro de mim.
E você entra.
Cabelo curto entre meus dedos,
macio como sombra na água.
Eu o seguro devagar,
como quem segura um instante
que não deveria existir.
Você levanta o rosto.
Batom vermelho
como fruta madura
esperando um beijo que nunca aconteceu.
Seu sorriso vem pela metade,
boca fechada,
olhos profundos,
escuros e penetrantes
como quem conhece
o segredo que eu tento esconder.
Você chega perto.
Perto o bastante
para que o mundo perca o foco.
Sinto sua respiração
quente no meu ouvido,
e a sua voz grave
escorre lenta
como vinho derramado no silêncio.
Um som baixo,
quase um gemido,
quase um chamado.
E então seu perfume
sobe da pele quente —
Linda irresistível —
âmbar floral.
Doce, quente,
com algo de noite e de pele
misturados no mesmo ar.
Seu corpo se encosta no meu
como se sempre tivesse sido assim.
Minhas mãos aprendem
a geografia do seu corpo
no mapa secreto da imaginação.
Suas pernas longas,
o calor da sua pele,
a curva firme do seu corpo
que parece feita
para caber no abraço de um desejo.
E por um segundo
que dura uma eternidade
só existe você
seu perfume
sua boca vermelha
e o calor da sua presença
que incendia o silêncio.
Mas a noite sempre termina.
E quando o pensamento volta
à realidade calma do mundo
você já se foi.
Só fica no ar
um rastro imaginado de âmbar
e a lembrança impossível
do gosto do seu batom vermelho.
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